Rosângela Trajano

Maria Carmélia

Àqueles que vivem no mundo de não sersse.

Maria Carmélia ruazava, às vezes quase corpo nu, descalça, imunda, cabelos empiolhados, olhos em assombro, boca com dentes da frente quebrados. Seu mundo era de sal. Dizia de ser Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo, depois dizia de ser princesa de um país só dela, depois de depois dizia de ser Iemanjá e depois de depois de depois dizia de ser simplesmente Maria Carmélia. Ruazava com um saco de estopas nas costas, xixizada, cocôzada, com cheiro de afastar gente. Dormitava em banco de praça, gatos lambeando seus pés, em degrau de igreja ou em calçada de bar. Sabia de cantar música de ninar, balanceando nenê sem existência pra mim, pra você e pra nós mas pra ela, sim. Maria Carmélia babava de boca aberta olhando pro céu à procura de um não-sei-o-quê. Foi sem querer mandinga fazer na porta da beata Serafina e vassourada levou. Gostava de rasgar rato e comer cru mas nesse dia Maria Carmélia rasgou galinha pra ficar a olhar palavreando de outras línguas rodando ao luar. Maria Carmélia, uma vez, raiva que teve batetou cabeça na parede da delegacia que esqueceusse de si algum tempo caída no chão quem visse diria que mortava. Foi socorrida e ficou presa em hospital de doido um dois três dias mais e mais. Mês depois Maria Carmélia voltou a ruazar com cabeça enfaixada, boneca velha nas mãos, boneca sem braços, sem pernas, feia e suja. Era nenê dela, filhinho dela, a menina dela. Maria Carmélia botava boneca pra dormir todas as noites ninando música de não conhecer ninguém. Pedir de comida não pedia, a gente levava pra ela. Água bebia da chuva ou das ruas. Maria Carmélia na noite da aleluia gritou muito, gritou até voz ficar muda, com mãos na cabeça, parecia de ter bicho brabo no corpo. Assustou todo o mundo. Maria Carmélia era doida de jogar pedra na lua, dizia a meninada, doidinha da silva. Um dia os mosquitos pegaram Maria Carmélia. Ganhou tamanco de salto alto e andareou até cair e ralar cara feia no chão de pedra, pegou tamanco e jogou fora mais braba mais. De dia às vezes se aquietava e sozinha em seu mundo tinha olhos parados no tempo que corria. De noite às vezes corria em círculos e quando em linha reta pra bem longe ia. Era dia de procissão e Maria Carmélia vendo aquela gente passar de vela acesa nas mãos cantando de música que gostava seguiu atrás desajeitada. Era reza em terço que Maria Carmélia queria de pegar. Quieta em seu mundo dentro. Seguiu a procissão até de onde chegou ela. Na Igreja padre disse não pra Maria Carmélia e ela chamou de águas salgadas em instantes olhos seus e o povo também da sua dor viveu mas até a santa chorou, gritou alguém, milagre de Deus, padre, santa está a lagrimar. E todo o mundo de joelhos ficou só Maria Carmélia chorava igual menino dando carinho no rosto da santa. Três meses do milagre e Maria Carmélia estátua de carne e osso, no meio do tempo, chuva e sereno não tirava ela dali nem ninguém se atrevia com ela bolir olhando pro sol noite, olhando pra lua dia. Tempo foi que Maria Carmélia buliciou pés, pernas, braços e cabeça depois saiu andadeando com os olhos sem piscar de nada, foi carinho fazer no burrinho de carroça parado na mercearia. Veio dono e tangeu Maria Carmélia que dente rangeu e deu mordida em homem, uivando igual lobo. Veio gente de acudir homem mas força muita havia em Maria Carmélia, depois de tudo sangue de homem saía de sua boca em tempo de uivar assombrada, de olhões de carreira sem saber o que queria ver. Pegaram Maria Carmélia trancaram de novo em hospital de doido. Mais três meses idos Maria Carmélia veio pra vida de novo ver sua gente, seu lugar, o tempo que a inventava todo dia toda noite. E riscou areia com dedo indicador, dizia de ser sua casa. Depois fez sorrisos pros meninos que iam pra escola. Maria Carmélia bênção começou a dá pro bêbado da madrugada e o bêbado da madrugada dizia ser pai de Maria Carmélia e iniciavam os dois a sorrir, falar, cantar depois dormitavam um ao lado do outro. Garrafa de bebida e boneca também dormitavam perto daqueles dois versos despidos de razão. Por marinheiro Maria Carmélia ficou a gostar e atrás dele passou a ruazar, sem saber de noiva ciumenta de marinheiro Maria Carmélia viu os dois a namorar começou a gritar, agarrou a noiva e com força pancadeou o vento, porque marinheiro esperto logo percebeu doidiça de Maria Carmélia e noiva dentro de casa meteu. Foi festa de carnaval e Maria Carmélia viu banda passar alegre foi atrás andadeando devagar, de chamar alguém com a mão direita, de querer dizer palavras só suas, ia lá, atrás da marchinha de carnaval. No dia onze mais um de dezembro Maria Carmélia foi inventar de entrar no rio. Nunca mais há gente de ver Maria Carmélia, nunca mais. Há jogada na praça uma boneca velha sem braços, sem pernas, feia e suja. De saudade cria água em olhos de vidro e vai dormitar sem mãe pra dela ninar.

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