Rosângela Trajano

O homem de pedra

Era uma vez uma bruxa muito exigente. Se pedisse ou mandasse alguém fazer algo tinha que ser do jeito que ela queria ou algum feitiço causava à pessoa.

A bruxa tinha uma vassoura voadora. Costumava nas noites de lua cheia voar sob os telhados das casas dos meninos mais peraltas do vilarejo. Ela queria confirmar se eles dormiam ou faziam alguma peraltice na calada da noite.

Ocorre que um dia a vassoura da bruxa quebrou-se. Não voava mais. Não atendia as suas ordens.

– Voe! Voe! Voe!, ordenava a bruxa.

Nada da vassoura voar. Nem se mexia.

Depois de muitas tentativas sem êxito mandou chamar um homenzinho que morava próximo da sua casa e, de vez em quando, fazia-lhe uns serviços. Ele não cobrava nada pelo seu trabalho, pois era rico, muito rico. Fazia porque gostava de ajudar, apenas isso.

O gato preto foi chamar o homenzinho. Quando o homenzinho abriu a porta e viu o gato preto miando copiosamente sabia que aquilo era coisa da bruxa. Recado dela. Era melhor atender, pois conhecia seu temperamento.

O homenzinho pegou a sua caixa de ferramentas. Sabia que a bruxa só o chamava quando precisava que consertasse algo, e partiu ao lado do gato para a casa dela. Chegando lá a bruxa ordenou-lhe que consertasse a sua vassoura. Ora, ela nem sabia pedir.

– Conserte!, foi o que disse.

O homenzinho tirou da sua caixa de ferramentas chaves de fendas grandes, pequenas e médias; tirou parafusos de todos os tipos e nada. Não teve jeito.

Quando informou a bruxa de que a vassoura não tinha conserto ela quase o engoliu:

– Você está mentindo! Homem caduco! Não sabe de nada!, reclamou a bruxa.

O homenzinho pegou a sua caixa de ferramentas e voltou para casa, tristonho, por não poder ajudar a bruxa. Estava no meio do caminho quando ao longe viu seu cachorrinho. Abriu os braços para abraçá-lo, mas a bruxa do alto da sua janela, com muita raiva, jogou-lhe um feitiço.

O homenzinho tornou-se pedra. E como para todo feitiço há um encanto ele só voltaria a sua forma humana novamente se alguém conseguisse enxergá-lo por dentro.

Assim passaram-se meses, anos, décadas, séculos. Veio a industrialização e o vilarejo tornou-se uma grande cidade. Mas ninguém queria destruir aquela imagem de pedra que era um patrimônio histórico da cidade. Construíram a estrada e a pedra no meio dela.

Todos passavam por ele e só viam uma pedra. Uma pedra com os braços abertos. Os turistas vinham de longe ver aquela tão perfeita que mais parecia um homem. Mas não vinham nada por dentro. Os animais passavam por ele, nada viam além de uma pedra. O homem de pedra era o orgulho do prefeito da cidade. Era uma imagem perfeita.

O homenzinho já havia perdido a esperança de que alguém conseguisse vê-lo por dentro. As pessoas tocavam nele, olhavam para ele, mas só viam a beleza das suas formas. A beleza interna era invisível aos olhos das pessoas. Não tinha jeito. Seria um homem de pedra para sempre. E viveu por muito tempo assim.

Numa certa noite fria de inverno, uma menininha que tentava em vão proteger-se da chuva parou de frente ao homem de pedra. Olhou para ele espantada! Ela podia ver seus olhos moverem-se! Olhou para o seu peito e viu um coração palpitando! Olhou mais e mais para o homem de pedra e conseguiu enxergar belos sentimentos: bondade, compaixão, paciência e amor.

A menininha descobriu que aquele era um homem de verdade, como ela jamais tinha visto em toda a sua vida, e o abraçou fortemente.

O feitiço foi quebrado. O homem voltou a sua condição de ser humano. Explicou à menininha tudo o que havia acontecido.

Agora só queria voltar para casa. Mas, logo descobriu que não tinha mais casa, nem dinheiro, nem roupas, nada.

O homem perguntou se a menininha podia dar-lhe abrigo, comida, água. Foi então que depois de tantos anos o homem sentiu compaixão ao ouvir a menininha dizer que também não tinha nada daquilo. Era uma menininha de rua, sem pai, sem mãe, sem ninguém.

Não tem importância, cuidaremos um do outro a partir de hoje, disse o homem sorrindo. O homem deu a mão à menininha e saíram os dois, juntos, caminhando no meio da chuva.

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