A preservação do imaginário infantil

Rosângela Trajano *

Vamos passear na lua, Madrinha! Não, Clarinha, a lua é muito longe, a gente nunca vai chegar lá! E o passeio de Clarinha acabou ali, aquela frase da madrinha adulta que não teve a sabedoria de pelo menos dizer “Vamos sim, Clarinha, outro dia.” O que tenho percebido pelas escolas por onde passo, pelas crianças com quem converso, em ruas, praças públicas e paradas de ônibus (Ah! Nas paradas de ônibus encontramos crianças maravilhosas!) é que essas crianças estão perdendo o imaginário cedo demais e entrando no mundo real muito rapidamente.

O que questiono aqui a pais e professores? O imaginário é o que nos ajuda a enfrentar medos e traumas. Através do imaginário podemos curar uma criança de uma doença ou até mesmo aliviar a sua dor. É preciso permitir a criança deixar sua imaginação fluir. Se ela pergunta, por exemplo, por que os anjos não caem do céu devemos dá uma resposta ao nível da sua pergunta, ou seja, levando-a um novo processo imaginário que, mesmo contrariando alguns teóricos da pedagogia, levará a um pensamento correto mais tarde. Todos dizem que é preciso contar a realidade a criança, não discordo, vejam bem. O que discordo é que a imaginação da criança seja reduzida de forma drástica ao ponto dela me dizer que Papai Noel não existe.

Quando eu era criança e chegava o mês de dezembro ficava contando os dias para chegar o Natal e Papai Noel vir trazer meu presente. Eu fazia questão de ir dormir mais cedo do que os outros para ele chegar logo. E quando eu me acordava, pela manhã, estava lá meu presente do jeito que eu tinha pedido. Vou mostrar aqui a vocês como meus pais me preparavam para conversar com Papai Noel. Eles diziam que eu não podia pedir uma coisa muito difícil dele trazer, devia pedir uma coisa que fosse com o precinho bom porque ele tinha que dá muitos brinquedos a outras crianças. Meus pais estimulavam meu imaginário, sabendo que devia pedir um presente baratinho a Papai Noel nunca pedi o que ele não podia me dá, então pedia sempre uma boneca. Acho que vocês compreenderam o que eu quis contar. Não é preciso dizer a criança a realidade, mas saber conversar com ela sobre o mundo real e que esse mundo possa chegar ao imaginário. Acredito que quando crianças as coisas que existem, a realidade, são absorvidas pelo nosso imaginário para que o pensar crie mundos diversos dentro da gente.

Esses mundos diversos nos ajudam a tornarmo-nos melhores na aprendizagem, na criatividade e no desenvolvimento psicossocial, porque se a realidade é o que existe e o que existe está no meu pensamento e para mim eu posso passear na lua quando quiser uma vez que a lua existe, eu ando e a vejo. A grande questão é que não é fácil chegar à lua. Isso a criança descobrirá no decorrer da sua aprendizagem seja na escola ou nos livros quando já tiver maturidade suficiente para poder dizer: ah! Que importa a luar ser longe! Um dia eu vou chegar até lá!

Penso ser assim. Penso que as crianças não querem mais desenhar princesas em castelos e príncipes em cavalos brancos, bruxas em vassouras voadoras, porque disseram para elas que tudo isso é mentira, invenção dos adultos! Os contos de fadas, para quem não sabe, têm sido utilizados para curar doenças em consultórios psicanalíticos e pediátricos. Permita só por um momento que a criança possa imaginar o que ela quiser, deixe que o seu pensar seja livre para criar mundos tantos forem necessários ao seu bom viver, nunca diga você só pensa besteira. Criança nunca pensa besteira, criança pensa coisas que se forem levadas a sério podem nos levar a grandes reflexões.
Quando uma criança pergunta, por exemplo, por que a morte só leva as pessoas boas nem mesmo sabemos que resposta dizer-lhes, porque muitos de nós não sabemos lidar com a morte e somos levados a refletir sobre ela.

Lembro-me aqui de um garoto que me perguntou, certa vez, como viviam os príncipes. Não me recordo direito o que lhe disse, mas acho que foi alguma coisa profunda, porque há poucos dias, depois de quase dez anos, encontrei-me com ele todo bonito dentro de uma farda da aeronáutica e me disse: acho que agora sou um príncipe, professora. Perguntei-lhe por que dizia aquilo e ele me respondeu: veja como estou bonito! Não me pareço com um príncipe? Sim, ele parece um príncipe porque é piloto de aviões de caça e me disse que esse era um sonho seu desde a infância e quando eu contava histórias de príncipes em seus cavalos brancos aquilo fazia ele acreditar que um dia ia ser um príncipe de alguma coisa. Falou-me mais ainda: não tenho um cavalo, professora, mas tenho um avião enorme!

Termino com o meu príncipe aviador. Que ele possa voar no mundo da imaginação sempre.


* Rosângela Trajano é licenciada e bacharel em filosofia e mestra em literatura comparada.

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