A poesia na sala de aula

Rosângela Trajano *

Os professores adotam histórias e falam da literatura infantil. Mas, todos esquecem a importância da poesia. Essa poesia contemporânea que não se prende às regras da gramática e que se joga no oceano da imaginação e do faz-de-conta da criança. Talvez por ser uma forma de expressão difícil de ser compreendida, ou uma linguagem mais complexa os professores não gostem de adotar a poesia.

Adotei a poesia nas minhas aulas de filosofia para crianças em duas escolas onde leciono. Na Escola Municipal Sérgio de Oliveira Aguiar e na Escola Municipal Pedro Fernandes, as duas localizadas no município de Extremoz, no estado do Rio Grande do Norte. Grande foi a minha surpresa ao constatar a recepção calorosa dos alunos. Eu sei, eles estão acostumados a ouvir historinhas, e me pedem sempre para contar uma. Aos poucos estão começando a me pedir para contar uma poesia. Como contar uma poesia? Eu inventei que se conta poesia. Foi assim que introduzi a poesia nas minhas aulas.

Com a poesia se pode brincar e era essa a minha intenção. Começamos a brincar de filosofar. É uma brincadeira engraçada, todo mundo sorri e todo mundo se diverte. A poesia não tem regras, isso facilita a idéia que se quer passar, não tem começo, meio ou fim, logo o poeta pode colocar um ponto final onde quiser. Enxergo na poesia uma metodologia diferente de se aproveitar duas coisas nas crianças: o espanto e a admiração. Foi pensando em como definir esses dois conceitos que comecei a brincar de contar poesias em sala de aula e os conceitos começaram a surgir nas poesias contadas. Eis uma metodologia. Ao invés de escrever uma história com personagens fictícias, narrador, espaço, tempo e etc., eu criei poesias para causar espanto e admiração nos alunos.

Um outro motivo que me levou ao uso da poesia foi o tempo das minhas aulas. Eu tenho apenas quarenta minutos para dá uma aula de filosofia. Em quarenta minutos eu reservo dez minutos para a contação da poesia e os outros trinta minutos ficam para o díálogo e a sessão de desenhos ou resposta aos exercícios que também se fazem recheados de poesia. Há de se explicar que poesia não são somente palavras escritas, arrumadinhas em versos e estrofes numa folha de papel. A poesia, também, pode ser expressa por um desenho, é a poesia visual. Meus alunos fazem poesia, sim. Mas, as poesias deles são visuais e vale ressaltar que são lindas! Os desenhos são cheios de paisagens, rosas sorrindo, o sol beijando a lua, o menino olhando a chuva com cara de espanto, o barquinho navegando numa nuvem. Gente, isso é poesia! Quando se trabalha com crianças que, ainda, não estão alfabetizadas não se pode exigir delas mais do que sabem.

Aos alunos do sexto ano, antiga quinta série, eu conto poesias. Eles assistem as aulas sem fazerem perguntas. No início eu me intrigava muito com o jeito deles. Até hoje nenhum aluno me perguntou porque eu conto poesias. Estou aguardando. Creio que eles acham ser obrigação ouvir o que eu conto ou escrevo. Como a disciplina de filosofia é nova talvez eles pensem que é assim que se estuda filosofia. Eles não reclamam, já é uma observação importante. Eles assimilam as aulas, pois fazem os exercícios e as tarefas para casa. Penso eu que os alunos temem fazer perguntas aos professores do tipo: por que você está me ensinando isso? Eu gostaria que eles me perguntassem para eu poder iniciar um diálogo com eles. No entanto, penso que eles já se acostumaram a ouvir o meu contar poesias e acham parecido com o contar histórias.

Com os alunos do nono ano, antiga oitava série, eu fui mais longe. Tenho uma turma muito boa. Para estes, eu expliquei a palavra metafísica. Pedi para eles imaginarem que eram habitantes da lua e que nunca vieram à terra. Eles só sabiam que aqui existiam pessoas, animais, homens inteligentes que construíam robôs, flores, lixo, morte, amor e etc. Solicitei que pensando nisso eles escrevessem poesias sobre estas coisas, assim estariam escrevendo poesias metafísicas. Foi um sucesso! Surgiram poesias belíssimas que fazem parte do acervo cultural da escola. É claro que a palavra metafísica vai muito além daquilo que eu expliquei para eles, mas deve ser levado em consideração que são crianças e jovens aprendendo os primeiros passos na filosofia. Dizer falsidades nunca, mas descomplicar sim.


* Rosângela Trajano é licenciada e bacharel em filosofia e mestra em literatura comparada.

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