um riso à menininha
a historinha que te contei
querida menininha
era de mentira
só pra te fazer sorrir
tu estavas tão triste
eu não sou heroína
nem sei salvar pessoas
sou frágil igual a ti
tenho rios dentro de mim
que desaguam para
nudez da minha dor
eu não sei plantar flores
e também não sei cuidar de estrelas
eu só sei fazer coisas de gente grande
desculpe-me, menininha,
pela historinha mentirosa
mas foi tão lindo te ver sorrir
que mentiria novamente
se eu fosse Eufrosina arrancaria
um riso teu a cada badalada do velho sino
nós duas sofremos a incompreensão
o desprezo, a ingratidão, o medo
de nos perdemos na infinitude
de todas as coisas feias que o homem
criou para bater, morder, machucar
estamos sozinhas nesta dor
o nosso grito corre oceanos
assustando os navegadores
que pescam poesias
nem eu nem você sabemos ser
nossas pernas carregam um mundo
de temores e ausências
deixemos as aves nos alimentarem
em seus ninhos... teremos amor verdadeiro
se quiseres ser adotada por Eufrosina
vens amanhã à minha casa que te levo
ao riso, à alegria, à felicidade
um riso é retrato de espírito liberto
eu sou mulher prisioneira de preconceitos
ideias mortas que assim mesmo me machucam
vens, menininha, amanhã... Eufrosina
te dará um riso imortal
eu nada posso te dar senão cantigas de ninar
menininhas assustadas... mulheres desamadas
