Rosângela Trajano
Ah, doce menininha
Quem me dera que o barulho dos caminhões na estrada não a incomodassem
Fiz para ti uma casinha de tijolos brancos
Lá dentro dela tem um cuidado
Meio desajeitado, meio enferrujado
Porque a arte de cuidar já não mais se pratica
Contudo, eu sei que tu só aprendeste a falar “cuida de mim” e nada mais
Toma pra ti meu cuidado, menininha
Ele não tem nada de magia
É feito de suor e lágrimas
De muitas noites mal dormidas
De visitas a manicômios onde os loucos não podem gritar
Ah, minha doce menininha, hoje uma vendedora de flores perguntou-me de tu
Esquecida… esquecida
Tempo… tempo… tempo
Essas horas malditas
Deixam a menininha sentada na varanda à espera de um instante
E para que serve um instante, perguntou a vendedora de flores
Acho que para cuidar de dores
Dê uma flor e tudo passa, disse a vendedora de flores
Não, não eu te darei cuidado
Em doce de tablete
Para que te lambuzes e sorrias
Porque quem cuida das coisas pequenas também sabe cuidar de gigantes
A alegria de te ver sorrir
Descansa na calmaria do relógio mudo na parede
O lírio, senhor dos tempos gentis, te mandou um beijo
Eu queria ser um átomo não sei pra quê
Talvez para ser tua partícula de cuidado e poder andar contigo mundos… mundos
Ninguém nos verá, menininha, se escondermos a cartinha do vizinho ranzinza
