A criança tem o direito de mudar de ideia quantas vezes quiser

1 de novembro de 2026

A criança tem o direito de mudar de ideia quantas vezes quiser

Rosângela Trajano

Todos os dias temos que tomar decisões e fazer escolhas. Não é fácil e nunca será. Se para nós escolher entre uma coisa e outra pode ser difícil, imagine para a criança encantada com tudo ao seu redor, imagine que não é porque está em formação que a criança precise se submeter aos nossos caprichos. Ela também tem o direito de mudar de ideia quando quiser.

Quando a criança muda de ideia várias vezes não quer dizer que ela esteja despreparada para vida, para suas lutas e obstáculos, para suas escolhas, mas está experimentando a vida conforme a sua condição de criança. E isso é uma das coisas mais belas que há na infância, ou seja, o direito de se encantar com as coisas ainda que elas pareçam simples demais aos nossos olhos acostumados ao óbvio.

A criança vai conhecendo o mundo do seu jeito, bem devagar, curiosa e espantada, experimentando cada pedacinho de si, do outro e das coisas. Hoje ela pode querer ser uma bailarina, amanhã uma médica; depois ela pode inventar uma brincadeira, mas decide que não quer mais aquilo; pode mudar de ideia na cor da roupa e tantas outras coisas e este é seu jeito de viver a vida buscando conhecer nas coisas e nas pessoas o que o torna tão irradiante e encantador nos seus sonhos e vida real, mesmo quando este mundo costuma lhe dizer que ela é obrigada a nos obedecer e tomar uma decisão rápida porque temos pressa.

Assim, cada mudança pode ser formulada como um encontro com uma nova possibilidade. A infância é um lugar de descobertas, de encontros e desencontros, da birra, do riso, do brincar. Como dizia Cecilia Meireles, ou isto ou aquilo, e que a criança possa dizer isto hoje e amanhã aquilo sem ser repreendida ou questionada.

Exigir de quem ainda está conhecendo o mundo pode ser o mesmo que fechar portas antes mesmo da criança atravessá-las e experimentar a doçura do seu direito de mudar de ideia quando quiser.

Em casa ou na escola a criança é ensinada a respeitar os adultos e o que elas lhes dizem. Os adultos instituem o poder de legitimar o que é o melhor para ela. Quando uma criança muda de opinião, corre o risco de ouvir que precisa cumprir com a sua promessa, que não pode mais voltar na sua decisão e isso acaba instituindo um poder de autoridade, tirando a autonomia do sujeito que é visto como social.

Esse poder que os adultos costumam impor as crianças nos faz lembrar de Michel Foucault quando ele nos fala sobre o poder investigando a disciplina dos corpos e das condutas que também pode ser abordado na infância.

A discussão e o estudo sobre a autoridade e o sujeito social nos leva aos conceitos da sociologia da infância, mais precisamente em autores como William Corsaro que nos ajuda a compreender a criança como participante da vida ativa em sociedade. É na infância que as crianças são capazes de interpretar, negociar e transformar a cultura.

Este nosso diálogo conversa com a Convenção dos Direitos da Criança que reconhece o direito de a criança ter opiniões, e ter essas opiniões respeitadas conforme a sua idade e maturidade. Sendo assim, a criança não precisa sempre ter a última palavra, mas deve ser ouvida pacientemente e cuidadosamente.

As culturas infantis se constituem nas brincadeiras com os amigos, com os próprios brinquedos e até mesmo com os amiguinhos imaginários onde há sempre sujeitos sociais e com autonomia para tomarem decisões e assim o barco vira um carrinho, o urso vira um príncipe, a bola vira uma bruxa e por aí vai. Neste aspecto, a criança começa a criar e dá significados as coisas, compartilhando e vivenciando outras formas de existência e experiência.

Para Corsaro, as crianças não apenas recebem a cultura dos adultos, mas se apropriam dela e a reinventam da sua forma, da forma que lhe traz uma vida melhor onde pode brincar e sorrir sem se preocuparem com o poder dos adultos. A mudança de ideia pode ser compreendida como parte desta transformação cultural.

Muitas vezes repreendemos a criança que muda de ideia e agradamos com mimos aquela que cumpre com a sua palavra. Com isso, podemos cair no triste incômodo de que a criança pode pensar que manter a sua palavra é mais importante do que escutar a si mesma, e não é verdade. Nossos desejos se transformam todos os dias assim como os da criança. Neste sentido deixo uma pergunta para você, querido leitor: estamos ensinando as crianças a mudarem de ideia ou a aceitarem aquilo que faz sentido para nós adultos?

Talvez o maior direito da criança é não ter a certeza de quem será quando se tornar grande. Ela pode mudar de ideia todos os dias. E nem por isso vai deixar de ser amada ou querida. A infância não mantém contrato assinado com o futuro ou coisa parecida. A criança tem o direito de viver interesses, abandonar projetos, deixar de lado um pensamento chato e partir para outra coisa que ache melhor e isso deve ser considerado normal porque tudo está em movimento assim como as águas correntes do filósofo Heráclito que dizia não entrarmos nela duas vezes, eis mais ou menos como são as mudanças de ideias das crianças.

Hoje eu citei Cecilia Meireles no texto, mas quero terminar com um poeta que o acho inteiramente belo para o meu pensar de menina peralta sempre que estou a escrever estes singelos ensaios, o nosso querido Manoel de Barros com os versos do seu lindo poema “O menino que carregava água na peneira” que nos diz o seguinte “A mãe reparou que o menino // gostava mais do vazio, do que do cheio. // Falava que vazios são maiores e até infinitos. // Com o tempo aquele menino // que era cismado e esquisito, // porque gostava de carregar água na peneira. // Com o tempo descobriu que // escrever seria o mesmo // que carregar água na peneira...” que nossos meninos possam carregar água em peneiras, mas se quiserem mudar de ideia possam também carregar água em ventos, corações, nariz ou até mesmo com as mãos. Um abraço, querido leitor!

Compartilhar

Sobre a Autora

R

Rosângela Trajano

Escritora e Educadora

Escritora potiguar, filósofa, educadora e ativista social. Unindo imaginação, poesia e filosofia para crianças.

Conhecer mais →

Newsletter

Receba notificações sobre novos posts e eventos.