a chuva e o menino
a chuva disse ao menino
tu estás molhado por minha causa
e eu te amo como se amam as flores
o menino com os pés encharcados
cabelo e roupa molhada
levantou seus bracinhos
quis tocar a chuva... quis abraçá-la
nunca foi amado
tinha desistido de tecer as nuvens
nos seus sonhos mais profundos
quis dar forma a chuva
fazer dela qualquer coisa
para caber nos seus bracinhos
caía forte a chuva sobre a cidade
as casas fechadas anunciavam
a solidão das ruas
o algodão doce do menino se desmanchou
nas suas mãos apenas os pingos da chuva
faziam cócegas... ele ria... ele ria
a chuva e o menino se entendiam
às seis da tarde desciam ladeiras
para encontrarem qualquer coisa
além da poda da árvore do benquerer
