Poesias para crianças: um encantamento

Rosângela Trajano *

Costumo dizer aos adultos que não escrevo poesias para crianças, elas me escrevem. Às crianças digo que poetizo o jeito de cada uma delas, a forma como vejo o mundo. E afirmo que nunca deixarei de ser menina, pois é assim que me vejo no espelho. A Rosinha abusada dos meus amigos e familiares, que vive a fazer desenhos tortos com a mão esquerda e a poetizar com dois corações: um meu e o outro emprestado de algum menino sem sono.

A criança guarda na alma o encantamento do mundo. Nós, adultos, precisamos encontrar esse encantamento através da poesia. Um dia me perguntaram se há criança sem poesia? Afirmo que não. Pode haver criança sem poema. O olhar da criança às coisas ao seu redor é diferente do nosso. A criança não olha pra vida, mas para o está na vida.

As minhas poesias para crianças tratam de temas que encontro nelas. Não é um processo de inspiração inconsciente, mas um processo que vai sendo construído aos poucos. Um menino apanhando lixo pode me trazer uma outra imagem no pensamento, como por exemplo um gato de rua abandonado e faminto. Já um gato de rua pode me trazer a lembrança de um menino vagando pela cidade grande. Escrevo muitas poesias quando converso com crianças. Escrevo poucas poesias quando fico dias sem tempo para conversar com elas. Não escrevo nada quando esqueço a menina que mora em mim no corre-corre da minha vida.

Penso na criança enquanto escrevo a minha poesia. Gosto da rima. Gosto de dividir o poema em estrofes, geralmente três. Preocupa-me a musicalidade do poema. E nas minhas poesias para crianças o que mais me interessa é despertar imagens. O difícil em tudo isso é classificar uma poesia como infantil. Não gosto dessa divisão poética. Mas acho necessária. Acredito que muitos poetas ainda trabalham a língua culta nos seus poemas prejudicando a leitura do leitor em formação.

É preciso escrever de forma simples ser compreendido, digo sempre. Poesia também é pra ser interpretada mesmo que subjetivamente. Escrevo quase do mesmo jeito como me expresso oralmente. A criança gosta disso, dessa proximidade com o poeta, desse jogo de palavras do seu mundo que a convida para outros mundos numa rima rica ou pobre.

O que faz da poesia para crianças um encantamento não é o poema, mas a poesia que está no poema. Essa poesia que exprime sentimentos, lembranças, indagações e sonhos. Se escrevo um poema que fala da tristeza de uma criança devo buscar a o sentimento nas palavras, as diferentes imagens em que essa tristeza pode se transformar, como esse sentimento repara o mundo.

Poetizar para crianças é abrir esse difícil mundo cheio de choros, raivas, saudades e porquês nunca respondidos. A criança é o poema e sua vida a poesia. Os poetas que escrevem para gente grande costumam ter inspiração perto do mar olhando para o céu estrelado com uma bela lua. Enquanto os poetas que escrevem para crianças costumam admirar um brinquedo, ouvir uma criança falar qualquer coisa, ver uma fotografia de uma criança, brincar com uma criança. É a criança a fonte de inspiração do poeta. O resto é só organização de idéias ou brincadeiras com as palavras.

Falo da minha poesia. Tenho muitas crianças ao meu redor. As minhas melhores poesias foram escritas depois de conversar ou brincar com uma criança. Se me tirarem de perto das crianças deixarei de fazer poesias para elas. Pois sendo eu uma mulher-menina nunca olhei o mundo com os olhos de uma adulta, mas sempre como a menina que amava fazer festas de aniversários para sua boneca de pano. A boneca de pano ficou no passado. A menina mora em mim. Quem poetiza para crianças vive o encantamento de permanecer entre dois mundos: o infantil e o adulto. Nesse universo infantil a poesia permanece no encantamento do sono, dos sonhos e dos meninos-sóis.

As poesias para crianças guardam segredos, mistérios, fantasias e enigmas que só os poetas desvendam. Não são as poesias para crianças os laços para aprendizagens, mas as cordas para criarmos os laços.


*Rosângela Trajano é licenciada e bacharel em filosofia e mestra em literatura comparada.

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